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O Turismo, numa perspetiva da Educação em, para e pelas Línguas

 

A aprendizagem das línguas acompanha de perto as necessidades emergentes do mercado de trabalho, exigindo uma estreita ligação entre os planos curriculares e as atuais solicitações profissionais. No entanto, e apesar da sua importância na construção dos curricula, o desenvolvimento de competências que contribuam para a empregabilidade não deve constituir a base de sustentação da sua conceção, de forma a evitar uma visão meramente profissionalizante da formação, dando origem aos denominados “currículos empresariais”. Nesse sentido, é fundamental a construção de curricula articulados em línguas, numa perspetiva formativa da educação em, para e pelas línguas no Ensino Superior, com base nos referenciais elaborados pelo Conselho da Europa. Em todos os setores profissionais, com especial destaque para o sector turístico, espera-se dos profissionais um conjunto de saberes que lhes permitam não só comunicar com o outro numa língua estrangeira, mas também agir com o outro, numa perspetiva plurilingue e pluricultural. Nesta perspetiva, a ESHTE tem desenvolvido um projeto formativo que aposta conscientemente na formação linguística dos estudantes e no respeito por essa diversidade, assumindo-a como uma herança comum a defender e a preservar, fator essencial para quem trabalha diariamente com turistas nacionais e estrangeiros.

O DL 74/2006, documento regulador da alteração do sistema de bases do ensino em Portugal pós Bolonha, define que o grau de licenciado pressupõe a aquisição e o desenvolvimento de competências transversais, independentemente da formação científica e dos objetivos profissionais. A competência comunicativa assume, neste documento, um papel de destaque, dada a sua importância no contacto com os outros e no “saber fazer” e “saber agir” em contexto profissional. Quanto falamos de “competências comunicativas” em língua, que permitem a um indivíduo agir, utilizando os meios linguísticos de que dispõe, não podemos descurar as componentes sociolinguísticas e pragmáticas, transversais a todas as áreas do saber. A língua não pode nem deve ser reduzida a um mero instrumento que nos permite comunicar socialmente, tendo em conta que ela assume não só um papel mediador de transmissão, mas também o papel de lugar de construção do conhecimento.

Damos assim especial destaque, na formação dos profissionais do turismo, à importância fulcral da formação em línguas, como espaço de aprendizagens privilegiado para o desenvolvimento de competências essenciais ao contacto com o outro. Para comunicar, não basta falar a língua dos turistas: comunica-se, mobilizando estratégias linguísticas e pragmáticas que nos permitam agir com, ligando a intenção à ação.

É através de uma formação linguística plural que se constrói a competência comunicativa, sustentada no conhecimento e na experiência adquiridos na interação entre essas mesmas línguas, elementos fundamentais no desenvolvimento de competências sociais e profissionais, garantindo o sucesso na qualidade do acolhimento e do acompanhamento dos turistas nacionais e estrangeiros.  Numa perspetiva de abordagem plurilingue e pluricultural na formação dos seus estudantes, com especial destaque para o desenvolvimento de competências que lhes permitam agir com o outro e dar continuidade ao seu processo de aprendizagem ao longo da vida, de forma autónoma, a Área Científica de Línguas Estrangeiras da ESHTE assume a necessidade de adaptação das suas metodologias às características da sociedade tecnológica atual, na utilização da web 2.0 e 3.0 e a todas as potencialidades de deslocalização das aprendizagens a ela associadas. De facto, as tecnologias vieram originar um efeito de deslocalização das aprendizagens no tempo e no espaço, permitindo aos estudantes prolongar as suas aprendizagens e possibilitando-lhes uma gestão autónoma do seu tempo de pesquisa, estudo e desenvolvimento de projetos coletivos em função da sua disponibilidade, dando continuidade ao trabalho do espaço-aula.

Se, por um lado, as tecnologias têm como efeito uma deslocalização no tempo e no espaço, por outro lado permitem aproximar os intervenientes no processo comunicativo (estudantes, docente e intervenientes exteriores) e tornam mais rápidos os contactos entre si, dando origem a uma alteração conceptual de espaço e tempo no processo de ensino e aprendizagem. Esta realidade tecnológica coloca-nos igualmente face a um antagonismo entre a contração do tempo na gestão da informação proporcionado pelas tecnologias, e a necessidade incontornável de tempo para reflexão, maturação e tratamento dos conhecimentos. Para além disso, as gerações atuais apresentam características individuais e coletivas de aprendizagem muito mais baseadas no multitasking, atestadas pela utilização em simultâneo do telemóvel, do tablet ou do computador, a audição de música, etc., prática quotidiana de crianças e jovens.

As solicitações são cada vez maiores e a dispersão na concentração faz-se sentir, levantando alguns problemas ao modo de tratamento da informação e ao desempenho cognitivo e comunicativo. É precisamente na gestão desses constrangimentos criados pela organização da informação no contexto das novas literacias digitais e multimodais que os docentes assumem um papel fundamental no desenvolvimento da autonomia dos estudantes, mediando o desenvolvimento das aprendizagens, como já faziam, mas respeitando e criando tempos de reflexão necessários ao tratamento cognitivo dessas mesmas aprendizagens, e utilizando igualmente as potencialidades da Web nessa intervenção. É nessa perspetiva, e tendo em conta que o desenvolvimento da autonomia exige uma orientação estruturada por parte dos docentes, que a Área Científica de Línguas Estrangeiras tem vindo progressivamente a incluir nas suas metodologias o desenvolvimento de trabalhos de projeto orientados para a ação profissional, com recurso a ferramentas multimodais (plataformas de aprendizagem, vídeo, redes sociais, etc.), onde o docente assume o papel de mediador nessas aprendizagens e na gestão de espaço e tempo (através do acompanhamento tutorial), contribuindo assim de forma efetiva para o gradual desenvolvimento da autonomia e da ação participada dos estudantes.

Assumindo a transversalidade dos conhecimentos e da aquisição das competências nos curricula do Ensino Superior, pretende-se, com o trabalho desenvolvido na Área Científica de Línguas Estrangeiras, contribuir para a construção do currículo de cada estudante da ESHTE, com destaque para a competência comunicativa e a autonomia, competências claramente transversais, numa perspetiva da Educação em, para e pelas Línguas.

 

 

 

Dulce Sarroeira

Professora Adjunta da ESHTE (docente de Francês) e Coordenadora da Área Científica de Línguas Estrangeiras